• melmigliori

Como o amor pode diminuir a ansiedade?*


O amor é uma das forças que promove nosso processo de humanização. É a energia do amor que nos coloca em contato com nossos sentimentos e somos capazes de produzir sentido, de atribuir sentido à vida, o que muitos chamam de subjetividade. “É a energia do amor que nos capacita a ir ao interior do outro sem impor modificações ao que lá encontramos”* e abrir espaço para conviver com a diversidade. É a energia do amor que nos permite nos amar, acolher nossas imperfeições e abrir espaço para um processo de reflexão e crescimento. É a energia do amor que nos permite nos interessar por algo, por alguém, pela vida e querer zelar do que nos cativou, querer zelar e manter, cuidar e construir.


Pouco estimulamos a faculdade do amor. Nos acomodamos com o conhecimento de uma pequena porção de tudo o que é amor. E se não fazemos o exercício de jogar luz em algo, para ganhar lucidez sobre aquilo, o levamos para a sombra. Ao não exercitarmos a reflexão do que é amor, vivemos uma qualidade muito sombria desta força. Compreendemos o amor como posse, como ciúme, como poder sobre o outro, carências infinitas a serem preenchidas pelo outro. Enfim, uma qualidade muito escura do que é amor, caminhando para sua polaridade oposta que é o desamor.


Na polaridade do desamor, facilmente caminhamos para a raiva, a mágoa e o ódio. O afastamento, a luta, a ausência de zelo e cuidado por si, pelo outro, pela vida.


Por outro lado, super estimulamos outra faculdade em nós, a que mais nos aproxima dos animais e nos afasta de nosso processo de humanização, nosso ponto mais instintivo do cérebro. Nosso cérebro reptiliano, centro que cuida de nossa sobrevivência e nos coloca em dois estados apenas: ataque ou defesa.


Ao assentarmos nesse ponto nossa percepção de eu, de identidade, assumimos que estamos aqui para sobreviver e precisamos cuidar de nossa sobrevivência. Tudo pode ser apenas ou um ataque ou uma defesa. Os outros, o que é diferente e não domino me ameaça. Vivo em luta constante, em estado de alerta a todo o momento. Compreendendo que meu maior inimigo está fora, é algo ou alguém que me ataca. Eu crio e assumo como real meu contexto de luta pela sobrevivência. E tenho que cuidar dia e noite de minhas conquistas, do que está sob meu poder agora, para não ser atacado e perder o que tão duramente foi conquistado.


Sobreviver é sem dúvidas uma tarefa básica. E precisamos sobreviver para estar vivos, para ter uma vida, para viver! Sobreviver é apenas um estágio. Quando compreendemos do que precisamos para sobreviver, nossa força de sobrevivência pode se somar a força de vida, para nos permitir viver. Construir a vida que queremos viver.


E como um ser humano sobrevive? Como um animal? Não, temos outras possibilidades.


Precisamos aprender a levar o amor para nosso ponto de sobrevivência. O amor nos permite humanizar nossa força de sobrevivência.


O amor nos coloca em contato com nossos sentimentos e podemos nos questionar: isso faz sentido para mim? Isso é bom para mim? Eu quero isso? O que é básico para eu sobreviver? Quais são as minhas fomes? Quais são meus buracos que preciso aprender a preencher? Quais são meus valores? Qual meu propósito? A serviço do que coloco minha luta pela sobrevivência? E aqui vemos outra função básica do amor: nos ajuda em nosso processo de seleção. Aprender a selecionar o que queremos e o que não queremos para nossas vidas. Pouco estimulamos essa faculdade do amor.


Nesse sentido, pelo caminho do amor, tomo contato com meu potencial. Começo a reconhecer o que é meu, o que sou eu.


À medida que vou ganhando lucidez sobre minhas questões, minhas necessidades, o que me agride, o que me agrada, começo a diminuir meu processo de ansiedade. A compreensão da responsabilidade que tenho sobre minha própria vida diminui a sensação de ataque constante.

A permanência no estado de ataque defesa, de luta pela sobrevivência cria uma condição química, física, emocional e espiritual que leva nosso corpo ao stresse permanente e sucumbimos. Nosso ser não sustenta e fazemos ansiedade, depressão, burn out e por aí vai.


O mundo não precisa mudar para eu estar bem! Eu é que preciso aprender a selecionar e a lidar com meus obstáculos. Precisamos aprender a questionar, vivenciar nossas experiências e buscar nossas próprias respostas. O amor nos capacita a estar abertos para vivenciar.


*sugiro a leitura do capítulo 9 de um ótimo livro: Caminhos de um Aprendiz, de Halu Gamashi. Boa leitura!

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