• Melissa Migliori

Conto dos Sonhos: Como ver borboletas

Ela nem olhou para traz. Era o hábito. Quantos hábitos. O hábito a impedia de habitar alguns espaços por dentro. Com hábitos muito marcados é difícil ligar os pontos, associar as idéias, formar a imagem. É difícil perceber o hábito.

Ela nem olhou para traz. Era o hábito. Quantos hábitos. O hábito a impedia de habitar alguns espaços por dentro. Com hábitos muito marcados é difícil ligar os pontos, associar as idéias, formar a imagem. É difícil perceber o hábito.


Ela não tinha olhado para traz? Não, ela não tinha o hábito de olhar para traz. Todos sabem que para marcar o caminho tem que se olhar para traz de quando em quando. Ela não sabia.


Como pode saber se caminhou se não sabe de onde veio? Ela não sabia que um passo é dado não quando se vai, mas quando se volta? A arte de voltar participa da construção. Construção é dos elementos água e terra que combinam o chão caminhado com tudo o que se sentiu e viveu no caminho. Quando voltamos a nós e fazemos a alquimia dos elementos, começamos a erguer um corpo. O ar, então, faz a manutenção do que foi construído. E o fogo?


Quem não aprendeu a olhar para traz, a aprofundar no caminho, no acontecido, tem dificuldade de perceber o fogo. Como é possível não perceber o fogo? A chama com seu brilho, o calor que queima? Ela não percebia.


Estava acostumada a seguir em frente, perseguir as metas. Acreditava no quando. O quando nos coloca em compasso de espera, esperando quando vamos chegar, quando algo vai acontecer, quando vamos nos tornar. Ela não sabia. Era um hábito. E hábitos são difíceis de serem percebidos.


Ela já não era mais tão jovem. Tinha um jeito frenético de passar a mão na testa para arrumar o cabelo. Estatura média, passos rápidos e roupas preferencialmente escuras. E sempre indo. Poucos amigos próximos. Neste dia, resolveu caminhar sozinha. Estava pesado. Sabe-se que o burilamento das construções se dá retirando os excessos, fazendo limpezas. As queimas do fogo. Burilam e abrem espaços vazios para novas criações. Como não voltava, pouco construía, carregava muito material. Muito material de tantas idas, mas sem alquimia de construção e sem as queimas para largar os excessos. Estava pesado.


Queimas haviam acontecido sem ela perceber? Sim. O fogo existe, e atua. Quando não percebemos as queimas tudo é perda e dor. E então, aumenta o peso carregar tanta dor. Nesse exato momento do caminho ela pára. O pensamento que veio acompanhando-a pelo caminho achou brecha de se aprofundar e mobilizou seu inconsciente.


É difícil perceber as mobilizações do inconsciente, são águas mais profundas, geralmente escuras. Seu balanço pode causar desequilíbrio. Achou que ia enlouquecer. Porque ela não quis parar, quis seguir em frente. Como um aquário sendo carregado num andar de passos rápidos – e descuidados – a água chacoalhava demais. E começou a vazar. Vazou na enxurrada de memórias que a invadiu. Vazou enchendo cada canal de seu sistema circulatório, todos os fluidos se movimentaram. Isso aqueceu o corpo, aumentou sua temperatura, acelerou seu coração. Começou a transpirar. Achou que não ia conseguir continuar. Se forçou a continuar.

Já tinha passado por todos os pontos de parada e nem tinha percebido. O passeio no bosque, as mesas para pic nic, o banco do mirante, a clareira gramada. A trilha se afinava. Onde iria parar agora? A trilha fina, agora, era apenas uma picada no meio do mato.


Algo inusitado: “please, don´t let me be miss understood.” Isso a fez parar. A frase trouxe a música, o contexto e a melodia. A tocou. Reconheceu que aquele era um pensamento diferente. Havia chegado a um ponto novo. As águas do aquário começam a se acalmar.


Como que num passo de dança vira-se para traz. Vê muitas borboletas coloridas. Primeiro pensamento: nossa, apareceram do nada! Hiato: o acontecimento não coube num pensamento. Foi mais do que isso. Sentiu-se ser banhada por pensamentos, águas, imagens e música. Virada para traz viu que as borboletas coloridas não apareceram do nada, havia um caminho caminhado. Respira, pausa. Segundo pensamento: um corpo se transformou. Voltou para casa.

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