• Melissa Migliori

Conto dos Sonhos: Ágora

Atualizado: 1 de Jun de 2020

Onde? Onde era aquele lugar? Por que não poderia viver ali? A aparente contemplação abafava tantas perguntas. Se era bem ali que sua visão via com tanta nitidez, porque não ficar e ver?

Onde? Onde era aquele lugar? Por que não poderia viver ali? A aparente contemplação abafava tantas perguntas. Se era bem ali que sua visão via com tanta nitidez, porque não ficar e ver?


Neste dia ela estava bem ali, no meio da praça. Como chegou ali? Foi levada pela vontade de viver. Muitos acham que esse caminho é uma busca, mas na verdade é uma conexão. Podemos fazer muitas coisas pelo caminho, percorrer muitas distâncias e até chegar a lugares. Se não houver a conexão, tudo vira apenas um lindo cenário. Este era o dilema.


Ela ainda não tinha nem percebido o seu dilema. Estava aparentemente tranqüila na observação. Havia muita vida naquela praça. Crianças brincando, pessoas passeando, uma correria gostosa com muita diversão e barulho de festa. Havia jovens andando de skate. Aquele fluir do skate chamou sua atenção. Era um movimento inteiro, integrado. Para seguir o caminho da pista de skate, moviam o corpo todo a cada manobra. Não só a cabeça, nem só os braços, nem só os pés. Estavam implicados na ação.


Por enquanto, ainda preferia estar na periferia ao estar no centro. E observava. No centro da praça havia uma casa. Simples, linda, florida. Viva, alegre. De varanda e muitos objetos coloridos. Foi o balanço que chamou sua atenção. Grande, com uma plataforma com colchão que era içada bem no alto. Balançava com vigor e em um dado momento, lançava o balançante junto com o colchão, o que lhe permitiria uma boa aterrissagem. Foi esse balanço que fez brotar as questões que estavam abafadas por debaixo da aparente contemplação. Foi o movimento.


E então, permitiu-se questionar. Será este movimento perigoso? A pessoa que vai ao balanço, poderá se machucar? Sem se ater a essas perguntas, passou a outra reflexão: como poderia alguém morar naquela casa, naquele lugar, com aqueles objetos coloridos e diferentes, com um balanço desse tipo e tanta vida acontecendo do lado de fora?


O que queria mesmo ela saber? Qual seria seu verdadeiro questionamento?

Será que ela queria experimentar o centro? Por um instante sair da periferia e ver como é viver no centro, onde as coisas acontecem? Que tipo de pessoa viveria no centro? Ela imaginava um tipo de pessoa. Seria ela tão diferente de sua imaginação? Teria ela colocado a imagem de si mesma numa busca e esqueceu-se de fazer a conexão? Assim poderia ficar tranqüila com o aparente movimento de estar buscando enquanto na verdade evita a conexão a todo custo. Que tipo de gente moraria no centro e teria um balanço para se lançar na vida que acontecia bem ali?


Quis pensar que para ela seria impossível morar ali, por conta de toda a agitação dos jovens, gente passando o tempo todo. Cessaram as perguntas. Ela não se fez a próxima pergunta: com qual agitação seria melhor conviver? Com a da vida acontecendo na praça ou com a agitação da mente na aparente contemplação se fazendo perguntas sem buscar respostas?


Da aparente contemplação passou para a aparente calma e acreditou que tinha esgotado o assunto. Não quis viver o dilema. Foi embora.

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