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Conto dos Sonhos: Contato

Para onde? É o que ela não parava de se perguntar. O efeito do confinamento abriu a possibilidade do questionamento.



Para onde? É o que ela não parava de se perguntar. O efeito do confinamento abriu a possibilidade do questionamento. Não importava saber o porquê. Com o que sua mente precisava se acostumar para poder ver a resposta? Sossegar a mente era um grande exercício. Mas ela ainda não tinha essa pergunta. Apenas, para onde?


Tudo o que ela sabia estava em sua mente. Ela ainda não tinha percebido isso. Vivia no mundo em que sua mente insistia em manter como realidade. Já fazia 40 dias que aquele mundo não existia mais. Pois essa era outra afirmação da própria mente tentando manter seu reinado, que se esgarçava a cada dia a mais do confinamento. Impossibilitada de repetir padrões, hábitos e caminhos do dia a dia do mundo real mental, se enfraquecia a cada dia a barreira da bolha em que vivia. Na bolha aceitava a existência por repetição. Todos aceitavam.


Passaram-se os dias do confinamento. A pergunta que tinha ainda era a mesma, para onde? Não sabia ainda que quem pergunta não responde. O exercício de questionar abre um espaço. Pavimenta um caminho de questionamento para novas respostas. Mas o questionamento não responde, apenas pergunta. Quem responde? O espaço aberto pelo questionamento é cobiçado a todo tempo. Muito difícil é sustentar um espaço orbitado por angústia, aflição, compulsões, ilusões, repetições. Qualquer uma dessas forças ocupa espaços, mas não responde.


Naquele dia, pôde sair. Iria ela sair com o espaço? Sim, conseguiu mantê-lo. Foi ao passeio. Era uma lancha enorme, dois andares, a deixava a uma grande altura das águas do mar. Os amigos do passeio conversavam. Tudo parecia normal, mas após 40 dias de confinamento, quem tinha espaços abertos por questionamentos percebia que nada mais era como fora antes.


Como preencher espaços? A mente não suporta lacunas, falta de informação. É preciso conhecer essa faceta da mente, de outro modo, quem responde não consegue mostrar à mente sua resposta. O que acalma a mente são dados de realidade. Neste momento a mente a captura. Capturou, porque conseguiu iniciar um diálogo.


No mesmo instante, como que numa conversa em sintonia com a natureza, uma lufada de vento sopra. O ar é o elemento do pensar. O encontro se dá na intensidade e na delicadeza. A lufada de ar nem foi tão forte, mas o suficiente para derrubá-la no mar.


A queda rápida pareceu durar eras. O corpo fez cambalhotas, atravessou o vento, caiu inteiro nas águas. O primeiro pensamento foi: como vou voltar? Mas já não era hora de pensar. Era a hora da resposta. O elemento água se apresenta, acorda suas águas e se mostra preenchendo os espaços. Neste instante descobre que quem responde é o sentimento. É esta energia que vai buscar em nós o que nos preenche, o que preenche nossos espaços com respostas que fazem sentido. É a inteligência das águas que conversa com a inteligência do ar.


Sua mente sossega e então consegue ver. Não importa mais voltar. Consegue ver a forma nas águas. Uma grande estrutura, um novo mundo, uma nova janela. Tudo era tão real que uma mão a puxa para dentro. Para onde? Para dentro. De dentro, enfim, pode acordar.

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