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Conto dos Sonhos: Homem Omolu

O olhar dizia tanto. Duro, direto, sustentado.

Um olhar cheio de chão. Uma terra firme e seca. Não achei que fosse acontecer assim. Não achei que fosse acontecer ali.

O olhar dizia tanto. Duro, direto, sustentado.

Um olhar cheio de chão. Uma terra firme e seca. Não achei que fosse acontecer assim. Não achei que fosse acontecer ali.

O olho escuro, palpebras relaxadas. Não se via nenhuma tensão em seu rosto. A linha dos olhos harmônica com a inclinação da cabeça e pescoço. Se via muito bem para onde ele queria olhar, porque o corpo todo estava alinhado com aqueles olhos. Ombros, tronco, quadril, joelhos e pés voltados para frente. Tudo carregava sua visão e fazia ela caminhar até onde ele quisesse que alcançasse. O olhar, por isso, chegava inteiro. Ele Sabia olhar.

O corpo que sustentava o olhar tinha carne. Era consistente, tinha massa, era matéria viva. Vivo e quente.

Era corpo de homem, cabelos curtos, liso e preto. Uma pequena parte caia sobre a testa, poucos fios. Não tinha jeito de ser arrumado. Estavam ali aqueles fios porque bateu vento, fez-se brisa ou escorregou devagar com o movimento. Ali estavam, quietos. As sombrancelhas eram grossas, cada fio no seu lugar fazendo um volume bem marcado, anunciando o espaço dos olhos, insinunando uma órbita oval. Parecia haver certa luminosidade nessa região. Não era o brilho dos olhos, vinha da pele desse entorno.

À distância já se via o branco dos olhos bem branco, os cílios escuros, longos, ajudando no foco. O nariz descia reto, do tamanho certo para aquele rosto, e os lábios repousavam um sobre o outro, sabendo estar juntos, fechados e comunicando. Tom de pele amorenado.

Todo o conjunto apoiado num pescoço largo e curto, que se abria em grandes ombros alinhados que pesavam para baixo. Não havia nenhum sinal de arqueamento, não era isso. Ombro que pesa para baixo, porque tem pés que bem pisam o chão. A boa base se percebia na leveza com que toda aquela robustez se mantinha ereta. Ele sabia ficar de pé.

Era dia e não era inverno. A claridade não indicava calor. Havia luz, uma presença de claro. Como se o sol estivesse naquele momento apenas clareando. Não era luz para esquentar, nem esfriar. Um microclima era dado pela própria figura daquele homem.

Ele jogava com a mente. Difícil para um observador iniciante ou gente de muitas certezas. A figura que se via dava informações diferentes daquelas que a mente segurava na leitura.

Em seu microclima ele vestia uma blusa de pele marrom. Bem verdade, era mesmo um colete de pele. Por de baixo, mangas pretas nos braços torneados. Calça também preta, mais alargada que a perna, de modo que não se via o contorno, mas se pressentia o enraizado. E da mesma pele do colete, vestia botas altas até um palmo abaixo do joelho, amarradas com cordão de couro. Por cima de tudo algo que lembra uma capa cinzapreta. O corpo estava por demais coberto, mas do que se via dava para saber de sua firmeza.

Na mão esquerda segurava uma coleira feita de corda azuladabranca. Uns três cães ao seu lado. Peludos. Assim como o homem, latiam pelos olhos.

Não era mesmo inverno. A vestimenta de pele era mais um elemento de como ele jogava com nossa mente. A quentura que se fazia sentir era válida, tinha sua razão de ser. Não era apenas para constatar uma época do ano. Corpo quente corpulento. Carne quente, músculo. Brasa de dentro. Era isso: ele sabia manter sua brasa, fazia parte do trabalho.

Sempre ali na praça por onde passava meu caminho. Ele não se movia. Parado, cães ao lado. Um banco de madeira alguns passos a frente. Seu microclima criava uma atmosfera que o movimento no em redor, como se pudesse haver um dentro dentro do dentro, era engolido e fazia algo respirar a parte. Por mais que tentasse evitar cruzei o olhar e entrei na frequencia daquele homem. Adentrei a seu microclima e minha mente perdeu o jogo. Comecei a ver as coisas como elas são. Sem as traduções por semelhanças, por hábitos, por generalizações ou por olhar e não querer ver. A mente rendida naquela claridade atmosférica sendo convidada – e tendo como única escolha aceitar o convite, a trabalhar para a visão do que o olhar via.

Antes eu tentei. Foram alguns dias, talvez três, tentando evitar o contato. Eu ia viajar, tinha meus cchorros para cuidar. Anunciei. O jornal aceita todo tipo de anúncio, quem leria o meu? Tomador de conta de cachorros. Um número de caixa postal para as eventuais respostas. Caminhava até o balcão da caixa postal no fim da praça todos os dias a ver se havia alguma resposta. Nada. Repetidamente fazia o mesmo trajeto, os mesmos gestos, as mesmas perguntas. As mesmas respostas.

Ele homem, sempre estava. Nesse dia, rendida, o vi. Como ele sabia que eu era a pessoa do anúncio? Como ele chegou até ali? Como sabia a que horas, todos os dias, eu iria ao balcão da caixa postal? A mente iniciante ainda no controle achava que sabia do que se tratava e tentava ignorar. Todos os dias o evitava. O biotipo não encaixava nos preconceitos, não o contrataria para o serviço. Tão iniciante e ocupada em se ocupar não registrou como importante o medo que brotava em mim ao perceber a figura. Ao mesmo tempo interesse e estranhamento. Comixão, retorcimento, incômodo. Não registrou.

Fez contato com os olhos, e com os olhos disse para sentar-me no banco de madeira. Ele ao meu lado. Com movimentos lentos colocou uma das mãos no bolso. A mão que segurava a coleira veio em auxílio empurrando de fora o que queria pegar dentro. Num ritimo bem seu tirou um pequeno pacote de papel alumínio já todo amassado, como se já tivesse abrido e fechado aquele pacotinho algumas vezes.Sabia que era um lanchinho. Já não era minha mente que se adiantava em preencher significados, mas uma comunicação clara do que via acontecendo. Um silência estrondoso com uma comunicação que me atravessava em todas as direções. De tanto que via minha pele respirava junto com a dele e sabia de seus movimentos, compreendia as ações. Os entendimentos brotavam de meus órgãos, como se eu pudesse tocar tudo e tudo me tocava. Fui acompanhando seus movimentos para o lanchinho.

A essa altura não tinha mais medo e vi que estava totalmente aberta e rendidada para a força da realidade dos acontecimentos quando vi o que ele trazia no pacotinho que abriu com tanto cuidado e naturalidade. Ele comia pele de rosto. Eu pudia ver com detalhes aquela pele ondulada pelo amassado do alumínio. O buraco dos olhos, o volume do nariz, a fina camada dos lábios, todo o espaço da bochecha. E ele pegava pedacinhos, colocava na boca e comia. Eu vi tudo isso.

Vi os fatos. Não fiquei com nojo, não fiquei nada, fiquei vendo. De tanto ver fui lançada a uma outra atmosfera. Senti o calor, entendi o por que da brasa. Quentura necessária para queimar e fazer pele se soltar. Cada uma que soltava via cair. Eram muitas que caiam, não sabia que guardava tantas peles. Pela mente achava ter apenas uma e estar usando sempre a mesma. No momento em que uma pele caía, a certeza de que não a queria mais.

Uma vez que vejo, não consigo mais desver. Agora era assim. Como ele, segurava na coleira meus três cães. Ele não era o tomador de conta de cachorros. Segui viagem.

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