• Melissa Migliori

Da raiz ao rizoma

Atualizado: 1 de Jun de 2020

Quando se estabelece um rizoma você se torna uma nova árvore da tradição. Você é um e múltiplos ao mesmo tempo.



Quando um aprendiz vive com um artesão para aprender um ofício ele é mais uma manga daquela mangueira.


Essa é uma etapa do processo.


Como manga ele pode dar infinitos e excelentes produtos. Mas para manter o fruto vivo, nunca chega à semente. Como manga, ele será sempre um fruto, um belo fruto, mas nunca aquela mangueira; mas sim, o fruto. Uma mangueira que dá bons frutos é excelente.


Mas ao mesmo tempo que dá frutos, para cada fruto é dada a lição de ser uma nova mangueira. Por mais que um dia aquela mangueira morra e a manga tente substituí-la, ela nunca será aquela mangueira. Esse é o risco da tradição. Talvez o maior desafio de se manter viva uma tradição. Nos encantamos pelas raízes da ancestralidade, mas não pesquisamos a fundo o que significa manter a tradição. Transformar é manter.

O eterno fruto será sempre alimentado pela raiz daquela mangueira.


Ser um descendente é ser um ente e se por em relação com sua ancestralidade. Ser mais um na linha de sucessão é diferente do que ser um e ter uma relação com uma linha ancestral. Estar em relação pressupões diferenciação e escolhas. Para escolher posso selecionar, respeitar diferenças, escolher preferencias.


Fazer raízes é romper o elo tradicional, romper o ciclo da sucessão e não ser mais uma mangueira tradicional, mas sim ser uma nova mangueira desta tradição.

Esta é uma segunda etapa do processo.


Nessa etapa temos que nos lançar numa pesquisa desconhecida, aprender quais os questionamentos que nos movem e questionar. E ter coragem de largar as respostas que nos agradam para novas surgirem e a caminhada continuar. Ter força para romper a casca, consumir a polpa, o sumo, até não ser mais aquela manga. Estar nua e cair no chão como semente. Só a semente, só a potência, e mais nada.


Por alguns instantes caídos nus temos todo o contato com a luz do sol. Temos toda a luz, uma lucidez assombrosa que revela o potencial, que aquece e assusta. Se permitirmos, a luz penetra e então estamos prontos para submergir na sombra criadora. Afundamos na terra fértil que na sombra tem todas as possibilidades a serem germinadas. É escura porque não sabíamos o que tinha ali.


E o que tem ali? Qual é a terra em que a semente submerge? É o terreno que foi preparado pela caminhada da manga. Enquanto fruto, caminhou, e ali parou. Essa terra, esse chão pode ser muito longe, muito perto ou logo ali ao lado daquela mangueira, o que faz a diferença é a caminhada que a manga fez para parar onde parou.


Para o processo acontecer a semente tem que ter estabelecido sua conexão com a luz. É ela quem vai guiar seu crescimento, é ela quem vai guiar e dar a força para não se esquecer de seus propósitos, princípios, valores, sonho, vontade até irromper da incubação. É ela quem vai dar a direção. E quando estiver pronta vai professar esta luz, vai ter sua profissão.


E esta é uma terceira etapa.


Nesta etapa descobre que para seguir a luz que o guia precisa estabelecer suas raízes. Não tem como crescer sem se estabelecer nesse chão. Então aprende que precisa pegar desse chão todo o alimento que esteja em sintonia com seus princípios, valores, propósito, vontade. Do que eu preciso para crescer com minhas escolhas? E então descobre que assim na terra como no céu. O que está em baixo é o mesmo que está em cima. E descobre suas raízes. E descobre que suas raízes são sua ligação.

Suas raízes é como vai escolher se estabelecer para estar a serviço de suas escolhas. A cada milímetro de crescimento da raiz há sempre a escolha de que tipo de alimento quero buscar. Para onde tenho que caminhar, como me firmar cada vez mais, para poder crescer cada vez mais. Outro paradoxo, se firmar, se estabelecer para poder caminhar.


E no seu crescer, descobre limites. Descobre que não é ela apenas por si que alcançará todas as distancias.


E esta é uma quarta etapa.


No crescer sua raiz toca outra. E muitas. E aprende a se comunicar. Descobre-se uma e descobre outros. Aprende a se relacionar e escolher e comunicar. Passa a compor um rizoma.


Quando se estabelece um rizoma você se torna uma nova árvore da tradição. Você é um e múltiplos ao mesmo tempo.


Você não é mais um de uma linhagem, você é a linhagem. Você não é mais um artesão, você é sua arte. Você é uma existência. Você é um com todos. Não mais um sozinho e nem mais um. Você formou seu triângulo, um dos símbolos do indivíduo.

Outras etapas se seguem.


O artesão de hoje em dia, é aquele que aceita viver a jornada. Aquele que sabe que o artesanal, o caminho da autenticidade, do feito à mão do secar-se todo até encontrar a semente para crescer com a sua incessante pesquisa de construção de si. E sabe que o artesanal cria rizoma e cria novos mundos em conexão.


O artesanal por fim, nos leva às raízes.


Com grande carinho por todos aqueles que aceitaram a jornada,


Melissa Migliori Machado

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