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Nossas Cavernas



No início da existência o homem se abrigou em cavernas. Nas cavernas estão registros do início de nosso processo de humanização.


Hoje, desafiados pela colheita que estamos fazendo dos tempos, estamos de dentro de nossas cavernas, construindo o que pode vir a ser o “novo normal”, a continuidade de nosso processo de humanização.


É bem vinda a hora de reconhecermos nossas cavernas. Podem se transformar apenas em esconderijos e até prisões, ou em abrigos para trabalhar na construção da travessia do mau tempo. A escolha é nossa.


A primeira caverna que conhecemos é o útero de onde nascemos.

A segunda a da mente, a caixa craniana com suas estruturas, onde comumente e facilmente nos alojamos. E a terceira, a do coração; essa morada tem que ser escolhida, descoberta e conquistada pela vontade constante de lá habitar.


A caverna do útero nos força a individuação. Te expulsa para ser um, mas nem todos querem. Presos ao lado escuro do acolhimento materno, quando o feminino torna-se labirinto infinito do subsolo escuro da terra fértil que gera. Sair dessa caverna exige querer brotar e criar raízes que vão buscar seu próprio alimento ao invés de exigir que os nutrientes sejam sempre levados à semente. O aguardar do eterno amor incondicional, o alimento infinito de todas as suas necessidades. O infindável anseio da necessidade de amor nunca saciada. Espera da fonte errada. O amor incondicional não habita a caverna do útero. É preciso sair em sua jornada, conhecer o mundo, compreender. Seguir a luz. A verdade é que o sol brilha lá fora, não ali dentro.

A busca por esse outro tipo de alimento que não vem da terra, mas sim da luz, para a planta crescer, nos leva a caverna do Logus.


A comodidade e conveniências transformam essa caverna em prisão do raciocínio, da lógica. Nos inibe o pensamento. Torna-se escuro novamente. Ficamos com os padrões e repetições ao invés da construção viva de conhecimentos. Se o incômodo cresce e algo nos diz que podemos transformar condicionamentos tomamos conhecimento do inconsciente e vislumbramos a luz novamente. O inconsciente nos leva para fora da caverna da mente, colocando-a em contato com a luz das imagens do pensamento, da imaginação, com as mensagens dos sonhos. Nos ensina a língua das sensações, nos permite filosofar, criar, atribuir sentido e existência. Neste momento percebemos espaços vazios. A necessidade de se preencher leva-nos ao conhecimento da terceira caverna, caverna do coração.


O aprendizado de contato feito com o inconsciente nos permite desprender-se da cadeia lógica e podemos criar uma ponte para que as cavernas se comuniquem. É preciso coragem, a ação que vem do coração. É preciso entrega para aprender a habitar a caverna do coração. Caminhamos sem saber, sem conhecer, apenas por sentir. Nos guiamos pelos sentidos. É preciso vivenciar.


Desenvolvemos a sensibilidade, tornamos o tempo relativo, a razão razoável. Transformamos a possibilidade de ver em olhar. O ouvir em escuta, o tato atravessa e toca o sutil. A construção de conhecimento é real e no tempo, vem sabedoria.


Por fim, o ar transporta nossas águas e fertilizamos nós mesmos nossa terra, nosso pequeno monte de terra que permanecia em potencial e pode agora germinar em um solo construído por si. As raízes reconhecem o seu próprio chão, reconhecem o que é alimento para si, sabem buscar a luz e descobre sua natureza humana. O chão reconhece o peso de quem o pisa e acata, entregando-lhe o que lhe é de direito.


É uma passagem.


A morada do coração é singular e coletiva. A mente é um mundo particular, cada cabeça um universo. Sua porção de terra é individual, mas quando a reconhece e a transforma em chão, o chão é coletivo para aqueles que o habitam.


Só temos coragem de pisar o chão e fincar raízes se tivermos amor à semente.

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