• Melissa Migliori

O artesão de si mesmo

Atualizado: 1 de Jun de 2020

O arquétipo daquele que faz, que gera um produto, que trabalha com a aproximação da intenção e gesto. O fazer artesanal traz a qualidade de estabelecer uma relação entre quem faz e o que é feito.




O artesão de que gostaria de falar não é uma definição restritiva a um modo de produção, tipo de produto ou matéria prima. Gostaria de resgatar um arquétipo, uma energia que está em potencial em todos nós. O arquétipo daquele que faz, que gera um produto, que trabalha com a aproximação da intenção e gesto. O fazer artesanal traz a qualidade de estabelecer uma relação entre quem faz e o que é feito.


Vejo muitos artesãos cumprirem um ciclo de ter uma idéia, colocá-la em prática e estruturar uma produção. A produção vai bem, aumenta e eis que vem a pergunta: se eu continuar nesse ritmo, vou deixar de fazer o que gosto, de “por a mão na massa”, e passar a administrar um pequeno negócio. Dilema! Nesse momento teme sair do modo de produção artesanal para aumentar escala.


A sensação é a de que você vai parar de “fazer”. E o que tem no fazer do artesão que quando ele se vê com a possibilidade de não o fazer mais, se assusta?


O artesão teme perder a relação. A ação é a casa do autoconhecimento. É a ação que nos revela, que mostra nossos produtos, que elucida descobertas no processo. É o que se vê de concreto, é o que percebemos quando olhamos para uma trajetória. Nossa ação, o que de fato fazemos, é tudo o que temos para, a partir daí, gerar reflexões, questionamentos, aprofundamentos. A ação é soberana. Podemos dizer o que for, mas o fato concreto é nosso dado de realidade.


Na minha experiência e observação, o artesão tem uma pesquisa. Ele é na verdade um grande pesquisador do autoconhecimento. Se interessa em conhecer como se dá a integração de intenção e gesto.


O que fazemos com as mãos é também nossa cognição. É o resultado do que estruturamos mentalmente e emocionalmente para fazer. E ao mesmo tempo, nossas conexões neurais se formam a partir do que fazemos. Um sistema que se alimenta e se constrói mutuamente. Logo, somos o que fazemos!


E de onde nasce o que fazemos? Algum evento interno ou externo me captura, me afeta (e tudo o que me afeta já está em mim e desperta!). Percebo o evento que me captura ou pela via do sentimento e reconheço uma vontade, ou o percebo pela via do pensamento, e reconheço uma idéia ou perguntas. Em ambos os caminhos pensamento e sentimento dançam juntos, o que muda é quem dá os primeiros passos da dança na sua percepção. E então, nasce uma intenção. Quando vamos partir para a ação, buscar o gesto que vai materializar uma intenção, muitos movimentos acontecem. Uma ação é composta de uma grande partitura de gestos entre a dança do pensar, sentir e agir. Não importa o como eu tenha iniciado, pensamento e sentimento tem papéis claros: sabemos que quem pergunta não responde! O pensar pergunta, é ele quem aponta os vazios. E o sentimento responde, é ele quem faz uma leitura do que te preenche, do que há em ti para responder.

É esta observação íntima e “artesanal” de auto conhecimento que nos permite redesenhar os limites e contornos que nos definem, ou pelos quais nos reconhecemos.


Essa é a pesquisa incessante do artesão. O fazer ativa seu processo de descoberta, se reconhece no que faz, no como faz.Na materialidade de um fazer, seja ele qual for, cabe um universo inteiro. É incrível a infinidade de descobertas que pode acontecer num processo de fazer. E diria mais, é apenas num fazer que se pode descobrir algo.

Ao se colocar em relação para fazer um vaso, um caderno, um biscoito, uma terapia, um trabalho o artesão sabe a partir de onde está brotando sua ação. Em resposta a essa atitude a matéria com a qual está trabalhando também se manifesta em forma e essência. A conversa acessa uma camada espiritual.


Acontecem sintonias e sincronicidades (as chamadas coincidências...), acontecem sinapses pineálicas (os chamados insights...), o inconsciente se expressa, seu temperamento aparece, seus limitessão testados. Há a sensação “da mente se esvaziar”, que é um momento de alinhamento e integração das diferentes camadas que nos compõe. A mente está acostumada a guiar, mas sua tarefa é acompanhar e servir. Não é tudo o que somos que tem que se espremer para caber na mente, e sim a mente que precisa se ampliar para reconhecer os vários tipos de linguagens dos sentidos físicos, emocionais e espirituais.


Por fim, o maior trabalho do artesão é a construção de si mesmo. O artesão de si constrói mundos, realidade e também produtos. O trabalho artesanal passa a ser então uma atitude e uma cultura.


Despertando para a construção de si como um valor do trabalho, cria-se a cultura do fazer. A cultura do feito a mão traz em sua filosofia valores que contrastam com valores de mercado do capitalismo.


Quando chega a hora da tal pergunta para o artesão, crescer ou continuar a “fazer”, a clareza de valores e a força do amor a essa pesquisa é o que dará força de não adulterar seu caminho.


O desafio da sobrevivência é constante. O que vejo como saída em muitas pessoas que vivem essa cultura é a multiplicidade de ações, fazeres, trabalhos. Se consideramos ser artesão uma atitude e uma filosofia de vida, percebo que são valores imateriais que me constituem e que podem estar em tudo o que eu faço. O que define o artesão é o princípio que movimenta seu modo de ser e fazer.



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