• Melissa Migliori

Passagens

A potência de se relacionar com o fenômeno da quarentena


A atitude interna de como abordar um fenômeno, um acontecimento faz diferença. A percepção desta atitude não é um hábito comum, por vezes é uma percepção não habitada, sem reconhecimento. Saber de si é sempre uma escolha. Conhecer os espaços que habita nos dá autonomia de selecionar e compor territórios interiores que aumentem nossa potência.


Todo pensamento se cria a partir de um estágio pré verbal. Um pensamento-imagem que se forma em uma das camadas de nossa mente a partir da percepção de afetos e sensações, e que só então permeia nosso campo lógico. A imagem formada em nosso pensamento é composta por captações.


Através de muitos estudos de neurociência e física quântica, é sabido hoje, que nossa mente não é o cérebro. A mente é um órgão de nosso corpo sutil, assim como o pensamento. Corpo sutil, é nossa porção invisível, a que muitos filósofos chamaram de corpo espiritual. Assim como o planeta Terra tem um campo eletromagnético que exerce várias funções para a manutenção da vida no planeta, nossos corpos também atraem e refratam elementos de acordo com a qualidade de nosso campo eletromagnético. Existem muitos aparelhos que podem medir as ondas eletromagnéticas de nosso corpo, como a ressonância magnética, o eletroencéfalograma, o eletrocardiograma e muitos outros. A constatação de que nosso corpo é uma soma de vários níveis de vibração de matéria está disposta hoje em diversas linguagens.


Assim como existe a idéia de inconsciente coletivo, um território acessado por todas as individualidades que também são acessadas por ele, há a idéia de Inteligência Coletiva, um conceito filosófico muito estudado no último século. O próprio termo é um pleonasmo, pois a inteligência, por definição, só pode ser coletiva! Eu crio a partir do que me relaciono, do que me atravessa, do que me afeta. Crio a partir do que faz sentido para mim, do que meus sentimentos tocaram e me corporificaram. Pensar e sentir não é um paradoxo, é uma dança.


Em última analise, pensar é se relacionar. Se relacionar com as imagens, com as idéias, com os conceitos, com os fenômenos. A qualidade de meus pensamentos é proporcional a qualidade das relações que estabeleço com inúmeras camadas e esferas da realidade. E então, a importância de saber: a partir de onde me relaciono com os fenômenos? Como estou me relacionando com a quarentena?


Goethe, um cientista, poeta e filósofo alemão, estudioso da fenomenologia e dos fenômenos da natureza, dizia: a natureza é um segredo aberto. Na minha tradução, entendo que não adianta tentar descobrir o que lá está, porque tudo já está exposto, não há o que se descobrir. O segredo não se descobre, ele se revela! Um segredo é revelado a partir de uma relação de confiança, simpatia, afinidades, abertura.


Percebo-me como parte do fenômeno na minha relação com ele, e então, ele vai se revelando para mim. O pensamento é uma abstração. O que você conseguiu abstrair do que lhe foi revelado. E lhe será revelado na mesma proporção em que cada um se abre para se relacionar com o fenômeno em qualidade e intensidade. No tempo, vamos aprendendo a traduzir sentimentos e percepções em pensamentos.


Na minha abstração da vivência da quarentena pensei em muitas imagens, uma delas se refere a passagens e ritos de passagens. Qual a potência desse pensamento imagem? O que se pode a partir dele? Para onde ele me leva, ao que me instiga pensar? Qual o espaço de autonomia e liberdade que ele gera? Quais associações estabelece? Quais responsabilidades me traz? A que tipo de relação ele me convida? Se aceito o convite da dança, inicia-se o movimento.


Tudo o que é vivo tem um padrão de vibração de contração e expansão, das estrelas aos átomos de nosso corpo. A quarentena é um movimento de contração para o espaço do comum, social, exterior. E na mesma medida e intensidade um movimento de expansão do contato com os movimentos internos, contato com entidades que nos habitam, contato com a vida interior. Assim como o cego privado da visão aguça outros sentidos, nós, privados do contato exterior podemos aguçar o contato com sensações, sonhos, imagens-pensamentos e ampliar nossas habilidades com a linguagem das sensações e sentimento. Podemos aprender e selecionar com o que queremos estabelecer conexão. O momento convida a uma conexão. Com o que quero me conectar?


A quarentena é um recolhimento. Nas tradições antigas, um rito de passagem começa com um recolhimento. No recolhimento, entramos em contato com as forças que estão mobilizadas em nosso território interno. É preciso aprender a notar essas mobilizações. Os sonhos, as vontades de fazer coisas que normalmente não se fazia, escrever, desenhar, são todas manifestações desse contato. Um trabalho terapêutico pode auxiliar a pessoa nesse contato, diluindo a energia mobilizada, ajudando na assimilação. Fortalecendo o emocional, ampliando a compreensão, preparando para confrontar e integrar. Caso contrário, pode haver uma refração das energias mobilizadas.


Uma grande força que está sendo mobilizada nestes tempos é a nossa relação com a vida e com a morte. O contato com essas forças trazem questionamentos do que é prioridade para minha vida. Do que realmente preciso para viver, para manter a vida? O que é básico para mim? Uma profunda revisão de valores. O que quero ver crescer no mundo? Com o quê e como quero contribuir, para o que quero ver crescer no mundo?


A morte traz outros questionamentos que intensificam nossa percepção do que é a vida. Quando ela começa e quando ela termina? Há um fim? O que morre e o que permanece? O que está morrendo para o que nascer? A relação de cada um vai iniciar uma estrada pessoal de questionamentos, que conduzi-los as suas conexões.

A última fase de um recolhimento é a saída. É neste momento da saída que acontece o ritual de passagem.


O ritual, não é o momento de pensar, de perguntar, é um momento para se viver. Viver o quê? A integração, a incorporação e a corporificação de uma força, de energias que entrou em contato durante um período de recolhimento.

O ritual então, dá a experiência do contato. Traz os pensamentos e tudo com o que se conectou para ser experimentado no corpo. Esse registro passa a ser uma nova referência sentida, uma nova corrente elétrica que percorre o corpo e vai gerar novas ações.


O ritual também marca um momento no tempo onde as transformações foram percebidas. Cria-se um espaço onde se reconhece o processo vivido. Ao se criar um espaço, o tempo pode atravessá-lo. E então, criamos realidade espaço-tempo. Cria-se um novo tempo e passamos a habitá-lo.


Cada um sabe o momento de firmar o ritual e a passagem para um novo tempo. Ele pode se dar durante ou após a quarentena. O importante é perceber. Estar atento a essa construção de si.


Bom trabalho a todos,

Melissa Migliori


*texto referente a live da Rede Psi que aconteceu dia 3 de junho de 2020, com a participação de Melissa Migliori

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