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Sobre o observar e o pensar

A coragem de dizer não sei na relação com o fenômeno


Quando nos propomos a observar um fenômeno, obedecemos a uma dinâmica interna nem sempre consciente. Comumente, nosso observar observa por hábito, condicionamento e formatação cultural.


A palavra coragem, tem sua raiz no latim e diz “ação do coração”. A coragem de dizer não sei nos tira do habitual. Não sei o que estou a ver. Não sei o que é esse fenômeno. Ao viver um momento de não sei, aquietamos a mente e nos abrimos para um encontro. Surge a possibilidade de se colocar em relação. O não saber é um momento de liberdade que o corpo precisa para sentir. O exercício de aprofundar na intimidade das sensações.


O hábito, que cria o habitat de nossa observação, delimita o conteúdo e a forma do o quê e como observamos. Muitas vezes só observamos o que já conhecemos, sabemos, acreditamos ser possível. Nossos estudos e conceitos, que são extremamente necessários para todo o processo, podem cercear ao invés de nos impulsionar a novos degraus de descobertas se não tivermos consciência de nosso processo de observação.


Como sabemos que o que estamos observando é de fato o que estamos observando, ou se é um registro de algo parecido que já observamos no passado? Na nossa economia psíquica, a mente tem a tendência natural de traduzir e arquivar o que apreendeu dos acontecimentos, e se valer de generalizações para atribuir registros já feitos a novos acontecimentos. O centro tradutor e arquivo atuam em nosso campo lógico, a estrutura da mente que nos permite o raciocínio lógico.


Diferente do raciocínio lógico, o pensamento atua com captações. Muitos elementos e órgãos participam da formação de um pensamento, entre eles, os afetos. Conscientes ou não, estamos o tempo todo em relação. Com idéias, pessoas, lugares. Nosso corpo é sensível a vários níveis de informações de todas estas relações, e se afeta. A depender da qualidade de nossa observação, percebemos conscientemente algumas delas, umas visíveis e outras não. Como, por exemplo, na clássica situação de que somos capazes de enxergar a cor, mas não a freqüência de onda. Mas podemos captar essas freqüências, sentindo o que a cor nos transmite, sentindo a vibração da cor. Podemos pensar a cor. Cada corpo se afeta de maneira única na relação com o fenômeno.


O pensamento é um órgão de nosso corpo sutil. Nossa porção invisível a que muitos filósofos chamam de corpo espírito. Uma dimensão de nós completamente implicada no corpo físico, mas que não é, nem está na matéria. Pensar não é raciocinar. O pensamento é aberto, imaginativo, abstrato. Quando estamos pensando, geramos perguntas, e não raciocinamos respostas. O intuito não é predizer a supremacia de um ou de outro. Mas saber diferenciar e tomar consciência de nosso processo de pensar. Como pensamos, como formamos a imagem a partir da qual vamos questionar?


Para se observar fenômenos vivos, nosso pensar tem que ser orgânico, vivo também.

Sou psicóloga. O que eu enxergo quando observo pessoas há muito me instiga. Queria saber mais sobre o que é que estou vendo, o que compõe minha observação. A qualidade da minha observação vai influenciar o que enxergo e guiar minha atuação.


No meu exercício de observação, chamou-me a atenção as perguntas que brotam em mim ao entrar em contato com algo ou alguém. Se tenho todas essas perguntas é porque estou “vendo” coisas que me suscitam tudo isso. E as perguntas começam a desenvolver linhas de pensamento, pensares que vão influenciar o que vou fazer, como vou me relacionar, como e a partir de onde estou vendo o mundo. Na minha prática, percebi que a observação viva (a que não acessa nosso centro arquivo) se relaciona com nosso pensar.


Quando estou enxergando alguém, questões começam a surgir. São muitas questões, de todo tipo, vindas sem ordem aparente, ou sem motivo aparente. É uma escuta múltipla, de mim e da outra pessoa. São várias camadas de observação, todas em dança.Um grande movimento. Nesse momento, não dá para saber para onde estou indo, aonde tantas perguntas vão me levar ou o que vão me trazer. E quando a dança das perguntas convida para o grande passo, meu corpo diz sim. E num instante me tira o chão, o meu chão. O chão por onde a observação se iniciou. O conjunto de questões me faz aportar em um novo terreno. O chão entre mim e a pessoa, o chão do encontro.


Pisando essa terra, começo a perceber que pensamento as perguntas formam. Entro em contato com o chão daquela pessoa, começo a perceber em que chão ela anda e então, tudo aquilo que ela diz e faz tem um sentido próprio daquele chão. A observação continua, mas agora trazendo não só questões, mas imagens, lembranças, suposições, sensações, sentimentos, outras perguntas...enfim, pensamentos-observação. É como se as idéias organizadoras da pessoa, seus arquétipos se tornassem visíveis por alguns instantes. E assim, observáveis. Como dizia o poeta, Manoel de Barros: o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê. O pensar ajuda o fenômeno a se revelar.


Não posso ativar meu centro arquivo para observar uma pessoa, se não, nunca a estaria vendo. Preciso permitir que meu pensamento acesse essa terra invisível, que meu pensamento pense e me traga imagens, sensações, formas, para então cunhar uma intervenção.


Fico com a imagem de que a observação é um fenômeno não localizado. Não se pode dizer onde está, em que órgão acontece, ela é verbo, é ação, e é também um estado. Nesse espaço itinerante parece ser possível o encontro das dimensões material e imaterial, o não lugar onde acontece o encontro da nossa observação.


Topar o desafio de tomar consciência de seu procedimento de observação passa a ser um estilo de vida! Um grande processo de auto conhecimento.

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