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Conto dos Sonhos: Tempo de ficar em qual casa?

Os dentes em sua boca seguravam as palavras, eram eles, as grades da boca, que decidiam o que podia ser dito e não dito. O diálogo mais importante ainda não havia acontecido.



Ela achou que ia só visitar. Viajou para NY. A vida toda achou que fosse apenas mais uma cidade. Ela não sabia a força da letra Y? Não, ela não sabia. Só com uma mudança de rota poderia unir os pontos neste novo território. O percurso do Y traz esta possibilidade. Mas quais seriam os pontos a serem unidos? Até então, seguia os pontos marcados pelo destino.


Por destino ela entendia destinação. Sabia a aula, mais ainda não tinha aprendido a lição. Sabia que cada movimento, cada ato gerava corredores de possibilidades. Mas não atuava assim. O plano substituía as possibilidades. Não percebeu que as raízes se transformaram em âncoras estáticas e que sinais de transformação estavam aparecendo em sua vida, mas o olhar de seguir o caminho das pedras não a permitia enxergar. O plano que virava discurso e se guiava pelas palavras que soltava.

O que sempre soube era o que estava lá em sua boca. Porém, nunca havia percebido que eram os dentes a falar. Os dentes, ossos expostos que se assentam como pedras marcando um caminho. Fazendo a fundação, marcando o tempo e as épocas. A última pedra nasce por último. Nós as carregamos ou são elas que nos carregam para onde querem? Ela não sabia, eram perguntas que nunca havia se feito. O que ela sabia era seguir o caminho das pedras, assim como um dente nasce após o outro. Os dentes em sua boca seguravam as palavras, eram eles, as grades da boca, que decidiam o que podia ser dito e não dito. O diálogo mais importante ainda não havia acontecido. A conversa interna, com seus dentes. O que os dentes teriam a dizer? Por anos atuou cuidando do que saia de sua boca. Mas o tempo passou, e a forma teria que mudar. Ela não percebia. Não era preciso se afastar de nada, mas sim mudar a forma. De todo modo, uma viagem se fez necessária.


Procurou no mapa a cidade do Y e descobriu que ali era mais um ponto de conexão de um vasto território. A ligação era tão grande, que até uma casa já estabelecida ela tinha nesse ponto. Foi o amigo da visita quem a lembrou da existência desta casa. Ela decide se hospedar em sua própria casa. A garrafa térmica deitada em cima da geladeira mostrava a quantidade de tempo que ficou sem café, sem acordar, sem estímulo. É este amigo que ela convida para um café, e também para uma festa noturna.


O amigo hesita em aceitar o convite. Será muito cedo para despertar à noite? Será ele o companheiro, ou apenas o mensageiro? Mensageiro da casa vazia há décadas, com decoração parada no tempo e com todos os vestígios que davam reconhecimento de ser sua a casa.


Não, não era ele quem iria para a festa com ela. Ela deu-se conta de que agora estava em duas casas. A sua e a outra sua. Já tinha os dois pontos polares do Y. E como será que se daria o encontro no vértice que iria aterrar as duas forças vindas dos dois pontos abertos em seu território?


O encontro se deu na sala. Um carpete cor de marrom terra. Seu outro eu, apareceu. Outro, o mesmo, igual, diferente? Não eram essas as perguntas que importavam. Tão próximo como uma irmã, mas ela mesma. E sem saber o que fazer com o corpo que habitava a casa com decoração antiga e tapete cor de terra que agora tinha uma garrafa térmica cheia de café, mantendo a temperatura.


Quem abre o espaço do acontecimento nessas horas é a vida. E ele se fez. As pedras tão enraizadas que marcavam seu destino começam a se mover e a cair todas no tapete da sala. Todos os dentes caiam, um a um até o ciso. O que fazer? Não sabem ainda.


Uma sabe que precisa fazer uma ligação, mas se ocupa em ainda tentar segurar os dentes. E não faz a ligação. Não chama o dentista. A outra demora mais em saber o que estava acontecendo.


Daria para colar os dentes caídos? Foi o próximo pensamento. Não havia como sair para buscar lá fora essa cola. Teria que descobrir como agir por ali mesmo. O momento era de ficar em casa. Quarentena. Mas em qual casa?

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